AGORA, A PALAVRA CASA

Paulo Sergio Duarte

[english]

 

Não, a luz não se fez. Foi construída, escolhida. Quando descoberta e emancipada por Dan Flavin, a lâmpada fluorescente era uma emanação de cor, vermelha, azul, branca, reduzindo seu campo de sentido a um grau zero, e isolava o significante à solidão absoluta. Fugia da eloqüência de significados da pop. Nem sempre. Existem as homenagens a Tatlin. O ascético minimalismo se rende à História e presta um tributo ao encontro da Razão com a Arte, mais que isso, sublinha um momento no qual a arte não aspirava estar só, mas cumprindo uma utópica função de encontro com a sociedade e suas urgências revolucionárias. Hoje, as belíssimas homenagens de Flavin, tão bem expostas em Beacon, ressoam como memória rala de um passado longínquo, no mundo governado, como diz Sandra Bondarovsky, pelas “análises de economia de elevador”, onde só contam os números e índices que sobem e descem.
Carmela Gross retomou os módulos fluorescentes em sua rigidez infernal; nada a ver com a submissão flácida do neon, tão sutil e tão avesso à resistência. Carmela preferiu essas barras de luz que se encontram à mão nas prateleiras das lojas, tal qual as encontrou Flavin. Seus fonemas seriam ready-mades, não fosse tão impróprio o uso do conceito lingüístico, posto que, na verdade, a lâmpada é partícula da letra, não do som. É uma tipografia luminescente que não se imprime, mas literalmente se exprime radiante quando forma as palavras no ambiente, HOTEL ou AURORA, num plano irrisório, superfície técnica solicitada pela energia elétrica. Espalha-se em fachadas, abriga-se em salas, emana dos tetos; essa poesia de morfemas é quase pictórica.
Agora flutua. É uma morada de luz no ar. Inverte-se o processo do trabalho. Não temos o significante irradiante em busca do significado, mas imagem que irradia em busca da palavra CASA que não se escreve, mas se inscreve, se esculpe como luz, lâmpadas, fios, reatores, suportes, no espaço. Não temos o plano da palavra, mas volume inefável, vazio cercado de luz. A casa é esculpida na sua arquitetura elementar, num desenho infantil como o faria Klee se a ele fosse dado o tempo de escapar da cilada moderna e de suas investigações formais. Vejam que, como na canção, não tem teto, nem tem parede, não tem chão, ninguém nela irá deitar na rede e, no entanto, ela nos habita. Essa casa de Carmela não é nossa morada, edifício de luz no ar, ela vem nos habitar. Elogio do desenho suspenso nas três dimensões poderia nos abrigar, mas, na sua seca candura, nos penetra, e quanto mais o olhamos tanto mais o incorporamos e pensamos: quantas casas nos habitam e não percebemos. No lugar da casa que nos resguarda e na qual moramos, o tugúrio de Carmela, bruto nas lâmpadas e seus intestinos de fios e dispositivos expostos, é coisa delicada em busca da palavra que logo encontramos. E por isso a guardamos: essa casa é pedaço de nós mesmos, espelho perfeito desse ser malfeito.

 

Publicado em:
Carmela Gross: Uma Casa. São Paulo: Galeria de Arte Raquel Arnaud, 2007. Folder de exposição.

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