Luiz Armando Bagolin
Publicado no livro
Carmela Gross: Quase Circo [Almost a Circus]. São Paulo: Cosac, 2025
[english]
No filme de Vojtech Jasny, Um dia, um gato (Az Prijde Kocour, 1963), uma companhia circense passando por um pequeno vilarejo se faz acompanhar por um gato de óculos com poderes mágicos: ao retirar as lentes, o felino passa a enxergar as pessoas pelas cores que definem suas personalidades – os mentirosos são roxos, os ladrões são cinzas, os falsos são amarelos e os apaixonados são vermelhos. Em sua primeira apresentação na tal cidadezinha, uma moça que personifica a juventude tira os óculos do gato, e todos que estão na plateia começam a se ver tingidos daquelas cores, gerando um pânico generalizado. Na sequência, o gato foge e há uma busca de pessoas boas e más interessadas em pegá-lo primeiro. Em sociedade, podemos viver dissimuladamente, fingindo para outras pessoas ser aquilo que não somos, mas dificilmente se pode enganar um gato, mágico ou não. O filme misturava fábula e crítica política de uma maneira poético-filosófica, quase rousseauniana, numa década que apenas se iniciava e seria marcada por eventos muito importantes para todo o mundo, tais como o levante do movimento antirracista, em Washington, com Martin Luther King, o assassinato de John F. Kennedy, em Dallas, e o início do governo presidencialista de João Goulart, o Jango, no Brasil (em seu primeiro e último ano de mandato antes do golpe militar de 1964).
De certo modo, a magnífica exposição de Carmela Gross, aberta no Sesc Pompeia em São Paulo, recentemente, guarda uma relação tanto temática quanto política com o filme. A artista desenvolveu a sua produção a partir do início daquela mesma década, manipulando os signos do capitalismo e do consumo, preocupando-se com as questões relativas às linguagens artísticas (notadamente, o desenho), com as quais buscou refletir sobre as condições, sempre reguladas pelo mercado e pelos regimes políticos, da liberdade, assim como sobre as diversas possibilidades de expressão humana num campo mais alargado do que o das artes. Observa-se nessa produção, em diversas ocasiões, tanto a contaminação desejável entre o gesto e a observação inaugurais da criança e as formas mais eruditas da arte quanto a assimilação dos modos de fabricação de objetos caseiros, como aquelas traquitanas que substituíam em nossa infância as coisas industrializadas.
Essa segunda qualidade faz com que a obra de Carmela se conecte diretamente à arquitetura de Lina Bo Bardi (1914-1992), que projetou o Sesc Pompeia (inaugurado em 1982) fundindo as premissas construtivas modernistas com as formas e memórias de uma antiga fábrica de tambores. Lina soube preservar parte da atmosfera fabril do lugar, pensando, ao mesmo tempo, na destinação lúdica dos objetos que ali eram fabricados, nas festas e na alegria popular. E é exatamente esta atmosfera que Carmela tenta potencializar com a disposição de 13 instalações de grandes formatos em Quase Circo. Por exemplo, em RODA GIGANTE (2019/2024), cerca de 320 objetos comuns (baldes de areia e terra, carrinhos de material de construção, brinquedos, ornamentos de jardins, máquinas, pneus, extintores, tambores etc.) tornam-se signos do mundo do trabalho descartados após o uso, mas também sugerem a possibilidade de serem reconvertidos e dotados de uma nova utilidade, num novo giro da fortuna, num mundo no qual a desigualdade econômica faz com que as pessoas mais vulneráveis, ou à margem do sistema, nunca abracem integralmente o universo industrializado ou pós-industrializado: a roda traz em si o suspense dessa transformação (pois os cabos nos quais se encontram amarrados estão presos à estrutura do teto do edifício) num brinquedo, num divertimento, um puzzle.
Na parede ao fundo, entre as tramas dos cabos, aparece FIGURANTES (2016), um letreiro exibindo os nomes de trabalhadores comuns, em geral anônimos, mas que formam a base da pirâmide socioeconômica. Em RIO MADEIRA (1990/2024), centenas de pequenas ripas de madeira pintadas de verde e vermelho margeiam o espelho d’água no espaço de convivência da instituição. Ripa é sinônimo de riba, que quer dizer margem, ribanceira de rio, mas também de algo que se coloca como marginal no sentido social. De novo, com elementos simples, que aludem a brinquedos, Carmela sugere a relação das pessoas marginalizadas com as habitações que margeiam os barrancos de rios e córregos, muitas vezes sujeitas a inundações e a toda sorte de doenças devido à falta de recepção adequada de esgotos e águas usadas. Ao mesmo tempo, as peças de madeira lembram instrumentos musicais, teclas de algum órgão que pode fazer ressoar todo aquele espaço, misturando as suas cores aos reflexos do espelho d’água projetado por Lina.
“Esta exposição é uma convergência. De uma parte, a obra da paulistana Carmela Gross, que há quase seis décadas produz arte como uma forma peculiar de observar, deslocar e recombinar as coisas do mundo, muitas vezes fazendo dos despojos do crescimento urbano a matéria de suas obras. De outra parte, a arquitetura da italiana Lina Bo Bardi, que encontrou no Brasil lições sobre o trabalho, arquitetura e design populares, que ela estudou e incorporou em sua própria arquitetura de princípios modernistas”.
ESCADAS VERMELHAS (2012/2024) é uma obra que nos permite pensar no trânsito entre céu e terra, entre alto e baixo, relativizando, como propunha a arquiteta, a relação entre cultura erudita e cultura popular. Segundo Paulo Miyada, curador da mostra:
Em BANDO (2016/2024), há uma série de folhas de zinco com serigrafias em verde de sombras ou silhuetas de animais (reais ou não?) enfileiradas sobre compensados de madeira de construção civil, em geral usados como tapumes, para se ocultar o que está sendo feito atrás deles. A instalação alude à destruição de nosso ecossistema em nome do progresso e do desenvolvimento econômico do qual se beneficia sempre, é claro, apenas uma pequena parte da população. Em GATO (2024), Carmela parte da ideia original de Lina (nunca realizada) de colorir cada uma das passarelas do prédio de concreto que se ergue ao fundo da antiga fábrica com as cores primárias: azul, amarelo, vermelho, verde. A artista então instala letreiros luminosos nessas cores escritos em italiano, como uma homenagem a Lina e aos trabalhadores italianos a serviço do desenvolvimento industrial da cidade de São Paulo no início do século XX, brincando, ao mesmo tempo, com a expressão “gato”, que na gíria brasileira quer dizer improviso, esperteza, um ato às vezes subversivo ou que contraria a norma vigente. O gato de Carmela indicia nas passarelas de concreto as cores planejadas por Lina, mas nunca executadas, fazendo-nos imaginá-las pintadas. Carmela nos faz olhar por uma espécie de lente (como os óculos mágicos do gato no filme), abrindo-nos a possibilidade de vislumbrar o espaço arquitetônico tal como imaginado pela sua autora, sem intervenções ou negociações (elas sempre existem) posteriores.
Há, em todos os trabalhos expostos, feitos muitas vezes com materiais não nobres (chapas de zinco, madeira de construção, serigrafias etc.), a sensação de urgência em nos percebermos num mundo em transformação, alheio a disputas metafísicas ou a idealismos de qualquer espécie (é interessante observar que, sendo uma artista pós-conceitual, Carmela recuse qualquer forma de idealismo), e podermos experimentar as coisas que nos cercam enquanto temos as condições para isso. E se pudermos experimentá-las com alegria e verdade, tanto melhor.
Ao percorrer a exposição de Carmela nos espaços amplos e acolhedores do Sesc Pompeia, com suas cores, luzes e alegria, mas também carregada de conotação e engajamento político, é quase impossível não lembrar da música O bêbado e a equilibrista (composição de Aldir Blanc e João Bosco), eternizada na voz de Elis Regina (1945-1982), feita em homenagem a Charles Chaplin, mas também a todos aqueles que resistiram e desapareceram durante a ditadura que tornou o Brasil, desde então, mais triste:
[…] O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil que sonha
Com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora a nossa Pátria, mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança dança
Na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar […]