SOBRE OS CARIMBOS

Flávio Motta

 

Este gesto é um jeito de transmitir um desejo, uma decisão, que mostra como a quantidade , efetivamente, gera uma nova qualidade.
A força da repetição, a ordem em cima da mesa, a afirmação, ritmada, obsessiva, esta infiltração da burocracia no território do desenho, dá um novo rumo aos nossos signos ou estígmas.
O mais antigo carimbo de C. . . . . ., digo Carmela, era uma referência ao gesto de carimbar: era murro sobre a superfície, rija e imperturbável. Cada gesto mostrava a ação mecânica da alavanca-braço; a mecanização do ser humano e ainda assim, conotando pelo já feito, o carimbo, as maneiras de trabalhar de muita gente: desde o artesanato obstinado, repetitivo, o artesanato para turista.
Aqui está o que os burocratas chamariam de processo do processo.
Tem mais: Carmela separou fragmentos de linhas, de vistos, de chamadastipográficas. Sim, há qualquer coisa de tipográfico, onde a própria artista se faz máquina – uma espécie de Minerva, por exemplo, a serviço de uma forma de recolher o típico ou o tipo, agrupando-os, para conservar o repertório de um desenho desmanchado. Às vezes, uma pincelada em vírgula, um visto, hachuras, etc..
São como as caixas, onde o tipógrafo guarda cada letra, cada vírgula, cada estrela, cada signo, que pode significar, apesar do isolamento.
Tipografia imaginária, com espaços surpreendentes, sem pontos, sem cíceros.
Um processo sem parecer.
A reprodutibilidade da obra de arte num escritório improvisado. O quanto ela consegue manter no originariamente transmissível, o que vale dizer, do autêntico.
A fadiga interminável da situação clichê não consegue aniquilar o significado do processo.
Um modo de qualificar o meio ou de narrar.
A leitura antes da leitura.
A velocidade escondendo o imobilismo.
A saturação, enrijecida, compulsiva, de um gesto qualquer, como este gesto sem jeito de escrever.

…assim mesmo, um mais além, entre os espaços: uma organização do campo perceptivo; a busca, nesse espaço, de uma situação nova; caminho de formigas, carregando a folha verde, que é e será o suporte deste trabalho constante. Esquecemos de falar de Kafka. Mas isto é transmissão de pensamento do meu tempo de bancário e de funcionário sem função…

São Paulo, 28 de maio de 1978.

 

Publicado em / Published in:
Carmela Gross: CarimbosGabinete de Artes Gráficas, São Paulo, 1978. Folder da exposição.

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