TRÊS PASSAGENS EM TORNO DE UMA INSTALAÇÃO

Paulo Sergio Duarte

[english]

 

A palavra
Hotel e aeroporto. Tanto faz. Salvo raros espécimes, ninguém habita esses espaços (falo dos diversos “espécimes” humanos, óbvio, não dos vírus, bactérias e insetos). Hotel é lugar do ser em trânsito. O hotel parece ser o não-lugar de todos, seria a própria suspensão do espaço da existência. Para alguns, suspensão definitiva, pois, conta-se, é também um local de preferência de certos suicidas. Inspirou canções de amor melancólicas como aquela interpretada por Edith Piaf, depois cantada por Ornella Vanoni. No hotel vive-se num lapso muito curto de tempo. Às vezes, apenas, por uma noite. Entretanto, diz-se, que, na verdade, habitamos outro lugar: a linguagem, nela estaria nossa morada. É pena que dela devamos sair para trabalhar. E, H O T E L, a palavra, é uma mínima partícula dessa morada; nem tão pequena quanto um fonema, já que é significante. Se não chega a ser átomo, é uma molécula, um morfema; não consegue ser menos que isso. Essa molécula urbana globalizada funciona nos cinco continentes produzindo o mesmo sentido. Interessante e coisa rara nos dias de hoje, sua origem é francesa. Carmela Gross seqüestrou-a e nela deu um trato. Primeiro fez um uso público escrevendo-a com lâmpadas fluorescentes vermelhas no alto da fachada do prédio de Oscar Niemeyer, no Ibirapuera, durante a Bienal de São Paulo de 2002. Tratou, de certo modo, da transitoriedade do evento e da arte, colocando seu trabalho, a palavra luminosa, um pouco de fora de tudo isso.
Agora, nessa instalação, tomou da cultura digital a forma. Para facilitar a composição visual por comandos cibernéticos, engenheiros e designers partiram de um retângulo ou quadrado secionado ao meio. Com eles são passíveis de se representar os dez dígitos numéricos e todo o alfabeto. Essa representação gráfica, herdada da eletrônica, há muito tempo faz parte do cotidiano. Dos relógios de pulso às tabelas de preços de supermercados, nos habituamos a ler as letras e números aos pedaços. Pobres palavras, paupérrimos números. É assim que está o mundo: feito em pedaços, para que a gente construa a gestalt que o torna legível.
Carmela estabeleceu dois pólos nos quais a palavra H O T E L é corpo e imagem. Escreveu a palavra aos pedaços. No entanto, atenção, não obedeceu às regras do universo digital, foi mais longe e despedaçou-a ainda mais e construiu duas esculturas. A feita de luz se materializa, tem volume, é uma espécie de pintura em branco sem tinta ou tela. Irradia poderosa sobre a sala, e, num certo sentido, parece governar a cena. É mestra, enquanto a outra, escrava, passiva, parece apenas refletir a cena. Feita de espelhos, esguia, plana, é muito discreta. Uma atua luminosa e se exibe, a outra é testemunha. H O T E L–L U Z é corpo sedutor pronto para ser possuído pelo olhar. H O T E L–E S P E L H O recolhe a cena inteira e nos devolve o instante real. Sem ofuscar ou atrair, a palavra-espelho nos reflete diante daqueles fragmentos que acaba por nos fazer aos pedaços, tal como a palavra ou como somos. Nessa pousada, por alguns instantes, temos um pequeno momento de verdade. Construímos totalidades precárias para costurar esses pedaços, sonhamos com conflitos estruturais que poderiam inaugurar um novo campo de problemas mais inteligentes e mais produtivos, e logo somos devolvidos ao mundo despedaçado.

O deslocamento
Na instalação, Carmela introduziu um veículo que substitui as nossas pernas. O veículo tem a gratuidade de um verso num poema. A distância pela qual nos transporta é muito pequena. São apenas alguns metros da galeria. Por isso posso imaginá-la como segmento de um corredor muito longo. Um metrô, por exemplo. Vi anúncios, num desses metrôs de uma grande cidade, pensados para funcionar como um filme: a publicidade impressa nas paredes do túnel desfilava para os passageiros como uma imagem em movimento. Graças a persistência retiniana, a parede do túnel virava um écran de cinema. Carmela subtraiu espaço e tempo. Estão contraídos de tal forma que, libertados de nossa experiência cotidiana, somos lançados na experiência da arte.
Em qualquer grande cidade estamos submetidos, pelo menos, a três tempos e três espaços – além daqueles subjetivos, é claro. O privado ou doméstico, o público ou profissional, e aquele ditado pela necessidade de nos deslocarmos de um para o outro. Se fizermos abstração dos sujeitos que são profissionais condutores de veículos de transporte e seus auxiliares – de pilotos de avião aos moto-boys –, o resto da humanidade urbana tem parte de sua vida consumida no interregno do deslocamento da casa-trabalho / trabalho-casa. O espaço será sempre o do veículo: do helicóptero, do carro blindado, à van, ônibus ou trens lotados. O tempo é inútil na vida nômade da pura geografia: todos estarão com a vida suspensa apesar do telefone celular, do piloto, do chofer, dos negócios fechados, da antecipação da reunião de diretoria, do sofisticado som do CD, da conversa com o companheiro de trajeto cotidiano, ou do sarro de corpos em intimidade forçada. Espécie de trailer da morte. Morre-se mais indo e vindo do que dormindo, porque durante o sono, ao menos, alguns ainda sonham. No trânsito das grandes cidades há sempre presente um grande assassino que nos mata aos pedaços, tal como trucidaram as palavras nos segmentos digitais. É a sentença branca de morte, aquela sem cadeira elétrica, mas com banco de couro e ar condicionado, ou pendurado nas portas dos trens ou nas argolas dos metrôs. São todos, temporariamente, cadáveres que falam, que fantasiam, mas mortos-vivos – pobres nômades compulsórios da jornada de trabalho. E há os que se divertem nesses trajetos, fazem amigos, agendam churrascos – zumbis alegres, mas zumbis.
Carmela subtraiu espaço e tempo. Nos deixou sozinhos, sem a experiência do trânsito ou das viagens às quais estávamos viciados, tão anestesiados e preparados que estamos para morrer aos pouquinhos. E ela nos sugere esse outro trânsito, tão curto e em outro tempo. Retirados do inferno nômade da vida contemporânea, a instalação de Carmela nos oferece um limbo para que possamos nos dar conta dos pedaços em que foi feita a existência, sem os demônios da vida exterior, estamos cercados pelo H O T E L–L U Z e o H O T E L–E S P E L H O, por alguns segundos, nossas moradas.

Sombra e reflexo
No parque de diversões as sensações corporais extremas dominam os brinquedos mais procurados. A vertigem da montanha-russa, a pressão da força centrífuga do rotor ou do bicho-da-seda, as cambalhotas do avião, neles somos jogados, no movimento, às sensações que o cotidiano não nos oferece. O pequeno passeio de Carmela não mexe com o corpo, mas é diversão porque diverge e nos redireciona. Nenhuma sensação extrema; isto nos remete às “pequenas sensações” de que nos falava Cézanne. São estas que estão restauradas no pequeno passeio porque as únicas compatíveis com a reflexão. Só que, agora, não podem mais ser oferecidas numa natureza-morta com maçãs.
Quando vi, na porta do atelier da artista, o trole que ela havia mandado fabricar para nos “transportar” no curto espaço da galeria, imaginei aquilo como um acessório supérfluo. O já velho olho moderno não percebe o quanto é necessário deslocar e subverter a prática cotidiana das pessoas, para que elas não tenham a experiência da arte reduzida à contemplação de objetos nas paredes. Sozinho ou em pequenos grupos, sobre o trole, o espectador agrega a experiência comum, por contraste e, mesmo, por oposição, ao pequeno e estranho passeio, e temos, numa espécie de câmara lenta, a possibilidade de nos isolar das leituras cotidianas e involuntárias que fazemos na cidade ocupada pelas marcas das mercadorias.
Seremos sombra e reflexo na rápida hospedagem no H O T E L–L U Z e no H O T E L–E S P E L H O. Atuaremos inteiros como personagens da rigorosa e simples geometria, construída, também, para termos certeza que o mundo ou as palavras feitos em pedaços estão assim para que possamos reconquistá-los na sua integridade durante a percepção em movimento e, recuperando e resolvendo as partes no todo, de novo as palavras e o mundo voltem a fazer sentido.

[Na madrugada os pássaros ainda cantam como se ouve o caminhar dos pedestres noturnos em certas cidades.]

 

Publicado em:
Carmela Gross: Hotel Balsa. São Paulo: Galeria de Arte Raquel Arnaud, 2003. Folder da exposição.

 

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